Às 02:45h a insônia mostrava a que veio. Dia longo da gota. Minutos insistindo em se transformar em horas. A rasgar novas horas de um mesmo dia. O corpo largado na cama. Os olhos agarrados ao teto. E a cabeça vagando por lugares musicais diversos. Por estradas e garagens. Sentia seu cheiro. Reexaminava cada detalhe. Estranho como nos apegamos a detalhes. E como todos eles nos visitam em noites como essa. O bocejo infantil após a 1h da manhã. O sorriso atrevido depois de superado o sono. Prenúncio de um amanhecer doce. Saudoso. Lembrei-me de João e Maria. A história me fazia adormecer. Uma rota de pão salvaria tudo. Reconfortante. Acalmavam-se meus olhos. Seus olhos. Seus olhos acalmavam minha vida taquicárdica. Existe rota para nosso recomeço? Para novas manhãs? Ou apenas horas de detalhes e minutos incansáveis de uma noite eterna? Sombras e palavras repetidas insistentemente na cabeça errante. Ocorreu-me que, talvez, a insônia seja apenas um pesadelo. Apenas não, o pior de todos. Estar preso num quarto escuro. Cercado de todas as questões que evitamos ao longo do dia. Dia longo da gota. Otto está certo. Dificilmente se arranca a lembrança. A lembrança. Mas veja o impasse: também me parece inviável, a essa altura da madrugada, permanecer seu refém. Arranquemos, então, do sono, novos dias. Na marra. E, devidamente acordados, caiamos nas graças de novas lembranças. E que suas horas sejam de tudo, menos de minutos insistentes de insônia.
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Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranqüilos, novo CD do Otto, tem sido a trilha sonora das insônias paulistanas. Aos que não conhecem, recomendo. Não a insônia, o disco. Ele é excepcional.
Che Guevara
Há 16 anos
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