segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Cura

Na medida em que amenizava a dor, voltava a escrever. Talvez mas acertado fosse dizer que à medida que escrevia, a dor ia se esvaindo de seu corpo. O corpo tem maneiras próprias de expelir aquilo que não lhe faz bem. Round midnight os primeiros parágrafos tomavam forma. Por volta da meia-noite, a dor tomava forma por entre palavras e tristezas precisas num papel incorpóreo. Tocava Miles. Visceral como sempre. Percorria a trilha de seu infortúnio. Sonora? Recolhia aos poucos os traços de sua própria identidade, há tanto deixada para trás. Escrevia e ouvia Miles novamente. Inteiro. Espalhado em cada nova conjugação verbal. Em conjunção carnal com cada palavra a se revelar. Por volta da meia-noite a dor é profunda, mas producente. E o jazz é ácido e visceral. Tocava Miles enquanto todas as feridas eram expostas. Expelidas num papel incorpóreo. E mágico.

Em Aberto

Conversas ao pé do ouvido
sobre nossa condição
intensamente indefinida
Questões abertas
que atravessam nossos dias e
desafiam nossas noites

Ao invés de me ocupar
com o ofício de discutir o que
não se discute,
prefiro silenciar nossa urgência
e fechar a sua boca
com muito beijos
e deixar nosso caso em aberto
Sem limites