segunda-feira, 12 de abril de 2010

Alma

Ouço as águas.
Vozes a invadir o mangue.

Sinto o impregnante cheiro de casa.
Da casa de alguém muito distante.

De olhos fechados, invado os instantes
e lugares da intimidade alheia.

Cerrados como os do morto,
de cujas veias surrupio cada lembrança.

Memórias de fúria e paixão
percorrendo meu corpo dormente.

Ausente, ouço o canto das águas
a preencher as entranhas do mangue.

Vejo o Capibaribe permear a Cidade
e as vidas que por ela vagam.


Enquanto vago pela vida de alguém que não conheço,
morro de saudade de quem não mais existe.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Despertar

Que a noite irrompa livre
Certa de que o dia já varreu tudo quanto
Desagradável

Que seja leve e que proponha novos olhares
Novas carícias

Que sussurre nova cantiga
Nosso canto de despertar

Que à noite seja outro dia
Para nossos sentidos entorpecidos
Massacrados pelos clarões da manhã
Que insiste em nos separar

Que seja ela nosso tempo
Nosso curto espaço de
Tempo
De viver mais que sonhar

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Cura

Na medida em que amenizava a dor, voltava a escrever. Talvez mas acertado fosse dizer que à medida que escrevia, a dor ia se esvaindo de seu corpo. O corpo tem maneiras próprias de expelir aquilo que não lhe faz bem. Round midnight os primeiros parágrafos tomavam forma. Por volta da meia-noite, a dor tomava forma por entre palavras e tristezas precisas num papel incorpóreo. Tocava Miles. Visceral como sempre. Percorria a trilha de seu infortúnio. Sonora? Recolhia aos poucos os traços de sua própria identidade, há tanto deixada para trás. Escrevia e ouvia Miles novamente. Inteiro. Espalhado em cada nova conjugação verbal. Em conjunção carnal com cada palavra a se revelar. Por volta da meia-noite a dor é profunda, mas producente. E o jazz é ácido e visceral. Tocava Miles enquanto todas as feridas eram expostas. Expelidas num papel incorpóreo. E mágico.

Em Aberto

Conversas ao pé do ouvido
sobre nossa condição
intensamente indefinida
Questões abertas
que atravessam nossos dias e
desafiam nossas noites

Ao invés de me ocupar
com o ofício de discutir o que
não se discute,
prefiro silenciar nossa urgência
e fechar a sua boca
com muito beijos
e deixar nosso caso em aberto
Sem limites

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Verão Paulista

Chove. Incessantemente chove em São Paulo. O som incomoda os vizinhos. O desejo de matá-la preenche a sala. A amava. A amava há não muitas manhãs. - Depressa, chegaremos atrasados! O sol libidinoso a romper a timidez matinal. - Ah, o verão paulista! O calor diurno, as tempestades ao cair da noite. O som incomoda os vizinhos. Ruídos estranhos. Um entardecer precipitado. Coxas, braços, lábios e um olhar perplexo. As perguntas precedem a cólera. Nelson Rodrigues amava o fluminense. O maracanã lotado, uníssono. A catarse futebolística. A cólera apaixonada. Mãos espalmadas em rostos pingando vergonha e sangue. O desejo. Batia. Batia a porta. Restavam eles. Adão e Eva. Lágrimas, muitas lágrimas. Cauby cantava a plenos pulmões. Chove em São Paulo. A Catarse do verão paulista. O som preenche a sala e os ouvidos dos vizinhos, enquanto a arma apontada à cabeça envergonhada disparava incessantemente. Chove em São Paulo. O desejo. A vergonha. A timidez da manhã. A tarde libidinosa. Metais e mãos pesadas. Chove em São Paulo. Enquanto Cauby incomoda os vizinhos, o sangue é lavado para um novo dia.

Rios, Pontes e Overdrives

No afã de concretizar meu projeto de construção de uma ponte entre Recife e São Paulo, e quem sabe da poesia com a prosa, convoquei um engenheiro-poeta-percussionista-sex-simbol-da-cena-musical-pernambucana-embaixador-da-Sicília-em-Recife: Roberto Scalia. Que, para nossa alegria, presenteou nosso blog com seus versos. Tante grazie, fratello! Axé NUDA!


Tente imaginar
um verso se libertando
como se rumando num crescendum rio abaixo
atirando-se sereno rumo ao mar fosse se desgrilhando das margens que o definem rio
e no desvario dessa evolução de rio a mar, a intrínsceca semente do involuir
do mar a rio


Roberto Scalia

domingo, 10 de janeiro de 2010

Sobre Dalì e Da Mata

O extraordinário liberto
por sons
Aproximam-se lábios perdidos
no tempo
Em fevereiro, o lento é rápido
o amor, intenso e à vida
se impõem os sonhos.


***

Nata, extraordinário aquele poema. A paródia acima é apenas uma homenagem despretensiosa. Para melhorar o nível literário do blog, tomo a liberdade de transcrevê-lo:

O absurdo preso ao tempo
do quadro
afasta-se a pertubação do vento
em agosto o rápido é lento
o céu, intenso e
os castelos suspensos
em sonhos.


Da Mata

http://damata.blogspot.com